Nominalização de orações (uso de substantivos para ideias abstratas)

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Nominalização de Orações (usar substantivos para ideias abstratas)

O que é nominalização?

A nominalização é o processo de transformar uma oração, um verbo ou uma ação em um substantivo ou numa expressão nominal. Em vez de dizer a ação como uma frase com verbo, falamos dela como uma "coisa" ou um conceito. Isso permite tratar a ação como sujeito, objeto ou tema da frase.

Exemplos:
- Oração: "Ela saiu cedo." → Nominalização: "O facto de ela ter saído cedo surpreendeu-nos." / "A saída precoce dela surpreendeu-nos."
- Oração: "Cancelaram o concerto." → Nominalização: "O cancelamento do concerto foi anunciado ontem." / "A decisão de cancelar o concerto foi tomada ontem."
- Oração: "Estudar ajuda." → Nominalização: "O estudo ajuda." / "Estudar é importante."

Quando e por que usar?

Usa-se nominalização quando queres:
- Falar da ação como uma ideia ou conceito (abstração): "A decisão foi difícil." (em vez de: "Eles decidiram e foi difícil").
- Mudar o foco: transformar uma ação em sujeito ou objeto da frase: "A aprovação do projeto é essencial." (sujeito nominal).
- Tornar o texto mais formal ou impessoal: "A realização do estudo será em junho." (mais formal do que: "Vamos realizar o estudo em junho").
- Resumir ou nomear um evento/ação: "O acidente ocorreu ontem." = foco no evento.

Aviso: usar demasiadas nominalizações pode deixar o texto pesado e pouco claro. Em muitos casos, uma forma verbal ativa deixa a frase mais direta.

Como se forma: principais padrões

1. Infinitivo usado como substantivo (nominativo)

O infinitivo (verbo no dicionário: amar, falar, estudar) pode funcionar como sujeito ou objeto.

Exemplos:
- "Estudar é fundamental." (Estudar funciona como sujeito.)
- "Fumar é proibido." / "Fumar pode fazer mal à saúde."
- "Comer bem ajuda na saúde."

Observações: adicionar o artigo transforma ligeiramente o registo: "Fumar é proibido" (mais comum) vs "O fumar é proibido" (mais formal ou rara).

2. Substantivos derivados de verbos (sufixos: -ção, -mento, -agem, -ância, -ura, etc.)

Muitos verbos têm um substantivo correspondente que expressa ação, resultado ou processo.

Exemplos:
- "decidir" → "a decisão": "A decisão de adiar a reunião foi contestada."
- "construir" → "a construção": "A construção do novo edifício começa em maio."
- "desenvolver" → "o desenvolvimento": "O desenvolvimento económico é lento."
- "investigar" → "a investigação": "A investigação trouxe novas provas."

Esses substantivos costumam combinar com preposição: "decisão de + infinitivo" ("decisão de adiar"), "construção de + complemento" ("construção do edifício").

3. Estruturas com "o facto/fato de" e "o ato de"

"O facto (ou, no Brasil, o fato) de" e "o ato de" nominalizam uma oração inteira. São muito úteis quando queres transformar uma sentença numa expressão mais abstrata ou enfática.

Exemplos:
- "O facto de ela ter faltado complicou o planeamento." (transforma toda a oração "ela faltou" numa coisa).
- "O ato de assinar o contrato foi formalizado ontem."

4. Substantivo + "de" + infinitivo vs Substantivo + "de que" + oração

Muitos substantivos aceitam duas formas de complemento:


  • Substantivo + de + infinitivo: "a intenção de viajar", "a decisão de encerrar".

  • Substantivo + de que + oração: "a ideia de que devemos mudar", "a certeza de que o projeto será viável".

Exemplos e diferenças de uso:
- "A intenção de viajar é real." (foco na ação; sujeito implícito ou igual à entidade que tem a intenção)
- "A intenção de que viajemos juntos foi bem recebida." (usa-se "de que" quando se quer uma cláusula completa com sujeito próprio ou maior complexidade)

Algumas vezes as duas formas são intercambiáveis; outras vezes, só uma soa natural:
- Natural: "Existe a possibilidade de chover amanhã." ou "Existe a possibilidade de que chova amanhã." (ambas aceitáveis, a segunda enfatiza a ideia como cláusula independente).
- Natural: "A decisão de fechar a loja foi tomada." (mais comum que "A decisão de que a loja fechasse foi tomada", embora essa forma também exista em contextos específicos).

5. Substantivo + possuidor (para clarificar o agente)

Quando o agente da ação precisa de clarificação, usamos um possessivo ou um complemento após o substantivo:

Exemplos:
- "A tentativa de resolver o problema falhou." (ambíguo: quem tentou?)
- "A tentativa do João de resolver o problema falhou." (agente clarificado)
- "A saída dela foi inesperada." ou "O facto de ela ter saído surpreendeu-nos."

Diferenças entre português e inglês (gerúndio e nominalização)

No inglês, o gerúndio (-ing) é frequentemente usado como substantivo: "Swimming is fun", "His leaving early surprised me". Em português, as estratégias mais naturais são:
- Infinitivo: "Nadar é divertido." / "Sair cedo surpreendeu-me." (ou "O facto de ele ter saído cedo surpreendeu-me.")
- Substantivo derivado: "A natação é divertida." / "A sua saída precoce surpreendeu-me."

Cuidado: o gerúndio português (ex.: "saindo", "fazendo") não funciona do mesmo modo de substantivo que o inglês. Dizemos "Gosto de nadar" (verbo com preposição) ou usamos "a natação"; raramente "o nadar".

Exemplo de nuance:
- Inglês: "I dislike his smoking." → Português natural: "Não gosto de o ver fumar" / "Não gosto que ele fume" / "Não gosto do hábito de fumar dele". "Não gosto do fumo dele" refere-se mais ao fumo (a substância) do que à ação.

Sujeito da ação: controlo e ambiguidade

Algumas nominalizações criam ambiguidade sobre quem realiza a ação. Para evitar esse problema, costuma-se indicar o possuidor ou reescrever a frase.

Exemplos:
- Ambíguo: "A tentativa de abrir a porta falhou." (quem tentou?)
- Claro: "A tentativa do Pedro de abrir a porta falhou."

Regra prática: se a ação nominalizada tem agente específico diferente do sujeito principal, explicita o agente com "do/da" ou reescreve usando uma oração verbal.

Transformar orações em nominalizações (e o contrário)

Exemplos de conversão:
- Verbo → Substantivo
- "Eles cancelaram o concerto." → "O cancelamento do concerto foi anunciado ontem." / "A decisão de cancelar o concerto foi tomada ontem."
- Oração (com sujeito e tempo) → "o facto de" + oração
- "Ela já saiu quando chegámos." → "O facto de ela já ter saído surpreendeu-nos."
- Nominalização → oração mais direta
- "A realização de uma investigação aprofundada levou a conclusões novas." → "Investigámos a fundo e descobrimos novas conclusões." (forma ativa, mais clara)

Estilo: quando nominalizar e quando evitar

Usa nominalizações se:
- Precisas de um tom formal ou impessoal.
- Queres focar na ideia/acontecimento em vez do agente.
- Estás a criar títulos, resumos ou categorias (ex.: "Avaliação", "Resultados").

Evita nominalizações quando:
- Queremos clareza e ação direta: prefira verbos ativos.
- A nominalização cria frases longas e difíceis de seguir.

Comparação (excesso de nominalização vs verbo ativo):
- Pesado: "A realização de uma análise detalhada pela equipa permitiu a identificação de várias falhas."
- Claro: "A equipa analisou detalhadamente e identificou várias falhas."

Erros comuns e como corrigir

1) Gerúndio usado como substantivo (erro de transferência do inglês)
- Incorreto: "O fazendo do trabalho foi difícil."
- Correto: "O facto de ter feito o trabalho foi difícil" ou "A realização do trabalho foi difícil."

2) Concordância verbal incorreta depois de "o facto de"
- Incorreto: "O facto de os alunos ter chegado atrasados prejudicou a aula."
- Correto: "O facto de os alunos terem chegado atrasados prejudicou a aula."

3) Preposição errada após certos substantivos
- Incorreto: "A necessidade para estudar é evidente."
- Corretos: "A necessidade de estudar é evidente." / "A necessidade de estudar (algo)". (Algumas preposições alternativas podem aparecer, mas "de" é a mais comum.)

4) Ambiguidade sobre o agente
- Ambíguo: "A tentativa de convencer falhou."
- Claro: "A tentativa da equipa de convencer falhou." ou "A equipa tentou convencer, mas falhou."

Substantivos frequentemente usados para nominalizar cláusulas (com exemplos)

- Decisão: "A decisão de adiar o exame foi anunciada."
- Possibilidade: "Existe a possibilidade de chover hoje." / "Existe a possibilidade de que chova hoje."
- Intenção: "A intenção de mudar de cidade foi confirmada."
- Fato/Fato: "O facto de ele ter mentido foi determinante." / "O fato de ela não ter comparecido surpreendeu-nos."
- Dúvida: "Tenho dúvidas de que isso vá ocorrer."
- Certeza: "Tenho a certeza de que ele chegou a tempo."
- Sugestão: "A sugestão de reduzir custos foi aceite."
- Proibição: "A proibição de fumar dentro do edifício é clara."
- Pedido: "O pedido de demissão chegou ao diretor."
- Tentativa: "A tentativa de resolver o problema falhou."
- Conclusão: "A conclusão de que era necessário mudar foi unânime."

Glossário rápido

- Nominalização: transformação de verbo/oração em substantivo ou expressão nominal.
- Oração: frase com verbo que expressa uma ação, estado ou acontecimento.
- Infinitivo: forma do verbo no dicionário (ex.: "falar", "comer", "partir").
- Gerúndio: forma verbal terminada em -ando/-endo/-indo (ex.: "falando"). Em português tem usos perifrásticos e não é normalmente substantivado como em inglês.
- Substantivo derivado: palavra formada a partir de um verbo por sufixos (ex.: "decidir" → "decisão").
- Sujeito: elemento que pratica ou sofre a ação na oração.

Resumo final

A nominalização permite transformar ações e orações em conceitos ou "coisas" (substantivos). Serve para dar ênfase, formalidade ou abstração — e é muito usada em registos formais e em escrita. Para formar nominalizações usa-se o infinitivo, substantivos derivados (sufixos como -ção, -mento), estruturas com "o facto/fato de" e combinações com "de" ou "de que". Evita-se o excesso para não tornar o texto pesado: quando a clareza e a vivacidade são importantes, prefira a frase verbal ativa.

Se precisares, posso mostrar mais exemplos com palavras específicas (por ex.: "decisão", "possibilidade", "proibição") ou transformar frases suas em nominalizações e vice‑versa.

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