Regras de concordância do particípio passado

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Regras de concordância do particípio passado

O objetivo deste guia é explicar de forma prática quando e como o particípio passado faz concordância (ou não) com outras palavras na frase. Veremos o que é o particípio, como se forma, quando ele varia em género e número, e quais são as exceções e os erros mais frequentes. Incluo muitos exemplos naturais para cada caso.

O que é o particípio passado?

O particípio passado é uma forma verbal usada para:
- Formar tempos compostos (por exemplo: tenho feito, tinha estudado).
- Formar a voz passiva (por exemplo: foi escrito, foram aprovadas).
- Funcionar como adjetivo (por exemplo: porta fechada, carta escrita).

Formação (resumo):
- Regular: verbos em -ar → -ado (falar → falado); -er/-ir → -ido (comer → comido; partir → partido).
- Irregulares comuns: abrir → aberto; cobrir → coberto; dizer → dito; escrever → escrito; fazer → feito; pôr → posto; ver → visto; morrer → morto; descobrir → descoberto.

Quando o particípio passado faz concordância?

1. Voz passiva com o auxiliar ser
- Regra: o particípio concorda em género e número com o sujeito da passiva.
- Exemplos:
- O livro foi escrito pelo autor. (masculino singular)
- Os livros foram escritos pelo autor. (masculino plural)
- A carta foi escrita pela Maria. (feminino singular)
- As cartas foram escritas pela Maria. (feminino plural)
(Traduções à medida: The book was written; The books were written.)

2. Particípio usado como adjetivo
- Regra: quando o particípio funciona como adjetivo atribuído a um nome, concorda com esse nome.
- Exemplos:
- Uma porta fechada. → Duas portas fechadas.
- Um trabalho feito. → Trabalhos feitos.
- Roupa lavada (singular/contável no contexto) → Roupas lavadas.
- Ele está cansado. / Elas estão cansadas.
(Neste uso, o particípio descreve o estado/resultante e segue as regras normais de concordância adjetival.)

3. Verbos de estado/resultativo (estar, ficar, permanecer, etc.)
- Regra: quando o particípio acompanha verbos de estado que formam um predicado (resultante), também concorda com o sujeito.
- Exemplos:
- A janela está aberta. → As janelas estão abertas.
- Depois do incidente, ele ficou assustado. → Eles ficaram assustados.
- A obra permanece inacabada. → As obras permanecem inacabadas.

Observação sobre significado: "A casa foi pintada" (ação concluída: alguém pintou a casa) versus "A casa está pintada" (estado resultante: a casa encontra-se pintada). Ambos exigem concordância com "casa"/"casas".

4. Tempos compostos com ter/haver (sem concordância)
- Regra fundamental: quando o particípio faz parte de um tempo composto formado com os auxiliares "ter" ou "haver" (ter + particípio / haver + particípio), o particípio NÃO concorda — permanece invariável (normalmente na forma masculina singular).
- Exemplos:
- Ela tinha terminado o trabalho. → Os trabalhos que ela tinha terminado. (não: *terminadas)
- Eu já tinha lido o livro. → Os livros que eu já tinha lido. (não: *lidos)
- Eles haviam comprado as casas. → As casas que eles haviam comprado. (não: *compradas)
- Com pronome átono antes do verbo: "Os convites? Eu já os tinha enviado." ("enviado" inalterado)

Explicação curta: "ter/haver" são auxiliares de tempos compostos; o particípio aí marca uma ação completada no passado e não funciona como adjetivo ligado ao sujeito, pelo que não varia.

5. Exceção importante: vozes passivas compostas (ter/haver + sido + particípio)
- Regra: quando construímos uma voz passiva numa forma composta, usando "ter/haver + sido + particípio", o participio final concorda com o sujeito da frase. Isso acontece porque "sido" é apenas o particípio do auxiliar "ser"; o particípio final é ainda um elemento de voz passiva e deve concordar.
- Exemplos:
- Têm sido tomadas várias medidas. ("tomadas" concorda com "medidas" — plural feminino)
- Tem sido feita uma investigação. ("feita" concorda com "investigação" — singular feminino)
- Haviam sido aprovadas todas as alterações. ("aprovadas" concorda com "alterações")

Nota: isto é diferente de um composto simples com "ter + particípio". Se a passiva for direta com "ser" (ou com "ter + sido + ..."), mantém-se a concordância com o sujeito.

6. Concordância quando há pronomes átonos antepostos
- Regra geral: o facto de o complemento direto ser substituído por um pronome átono (o, a, os, as) anteposto NÃO altera a regra de concordância: com "ter/haver" não se faz concordância; com "ser"/"estar" o particípio concorda com o sujeito (ou com o nome a que se refere quando funciona como adjetivo).
- Exemplos:
- Com "ter": "As cartas? Eu as tinha escrito." → "escrito" inalterado.
- Com "ser" (passiva): "As cartas foram (por mim) escritas." → "escritas" concorda com "as cartas".

Evite formar frases do tipo "As cartas que ele as tinha escritas": isso é considerado incorreto na norma culta. O correcto é "As cartas que ele tinha escrito" (tempo composto com "ter").

Erros comuns e como evitá‑los

- Erro: Fazer concordância com "ter/haver".
- Errado: *As tarefas que ela tinha feitas.
- Certo: As tarefas que ela tinha feito.
- Como evitar: sempre que vir "ter" ou "haver" como auxiliar de tempo composto, mantenha o particípio na forma base (masculino singular).

- Erro: Confundir "ser" e "estar" e, por isso, usar uma forma não apropriada.
- "A sala foi arrumada." (alguém arrumou a sala — foco na ação)
- "A sala está arrumada." (a sala encontra-se em estado arrumado — foco no resultado)
- Como evitar: pense se quer expressar ação concluída por alguém (voz passiva com "ser") ou estado/resultante ("estar", "ficar"). Ambos exigem concordância, mas o sentido pode mudar.

- Erro: Não aplicar concordância em passiva composta com "ter + sido + particípio".
- Errado: *Tem sido feita-se melhorias. / *Tem sido feito melhorias.
- Certo: Têm sido feitas melhorias. (ou: Tem sido feita uma melhoria.)
- Dica: localize o sujeito real (o nome que concorda) — o particípio final concorda com esse sujeito.

Formas irregulares e atenção à concordância

Alguns particípios irregulares mantêm a mesma forma que o adjetivo correspondente e, quando usados adjetivalmente, obedecem à concordância normal:
- aberto / abertos / aberta / abertas: "A porta está aberta." / "As portas estão abertas."
- escrito / escritos / escrita / escritas: "Um bilhete escrito." / "Bilhetes escritos."
- feito / feitos / feita / feitas: "Um trabalho feito." / "Trabalhos feitos."
- posto / postos / posta / postas (posto/posta é menos frequente no uso adjetival, mas existe)

Sempre observe o contexto: se o particípio tem sentido adjectival, ajuste género e número.

Comparações úteis com outras línguas (para quem conhece espanhol/francês/inglês)

- Espanhol: tal como em português, com "haber" (equivalente de "ter/haver") normalmente NÃO há concordância; com "ser" e quando o particípio é adjetivo há concordância. Ex.: "Las cartas que he escrito" (sem concordância) vs "Las cartas fueron escritas" (concordância).
- Francês: com "avoir" (equivalente de "ter"), o particípio pode concordar se o complemento directo vier ANTES do verbo (por exemplo: "Les lettres que j'ai écrites"). Isto difere do português, onde a forma padrão é não concordar com "ter/haver".
- Inglês: o past participle é invariável (written, done) e a concordância não existe da mesma forma; por isso, falantes de inglês devem ter atenção às regras de concordância do português.

Resumo rápido (cheat‑sheet)</b]

- Se o particípio faz parte de um tempo composto com "ter" ou "haver": não concorda. (tenho escrito, tinha feito)
- Se o particípio aparece numa voz passiva com "ser": concorda com o sujeito. (foi escrito / foram escritas)
- Se o particípio funciona como adjetivo ou acompanha verbos de estado/resultativo (estar, ficar, permanecer): concorda com o nome/subjecto. (está fechada / ficaram surpresos)
- Exceção: vozes passivas compostas com "ter/haver + sido + particípio" → o particípio final concorda com o sujeito. (têm sido tomadas medidas)

Glossário breve

- Particípio passado: forma verbal usada para tempos compostos, voz passiva ou como adjetivo (ex.: escrito, feito, aberto).
- Concordância: ajuste de género (masculino/feminino) e número (singular/plural) entre palavras.
- Auxiliar: verbo que, junto de um particípio, forma tempos compostos ou a passiva (por exemplo: ter, haver, ser, estar).
- Voz passiva: construção em que o sujeito sofre a ação (por exemplo: "O livro foi lido").
- Predicativo: elemento que atribui uma qualidade ao sujeito ("Ela está cansada" — "cansada" é predicativo).
- Pronome átono/clítico: pronomes objecto curtos que normalmente se unem ao verbo (o, a, os, as, lhe, lhes, me, te, se).

Observações finais sobre variações (PT‑BR vs PT‑PT)

- As regras essenciais de concordância do particípio são, em termos normativos, as mesmas em Português do Brasil e em Português de Portugal: "ter/haver" → sem concordância; "ser/estar/ficar" e adjetivos → concordância.
- Diferenças de uso surgem sobretudo na colocação dos pronomes átonos (no Brasil é mais frequente pospor: "eu já os tinha visto" vs em Portugal é comum proclitíco: "já os tinha visto" ou "já tinha-os visto" em registos mais formais). Essas diferenças de colocação não mudam a regra geral da concordância.

Se quiser, posso fornecer uma lista mais extensa de exemplos (com várias combinações de auxiliares, pronomes e vozes) para praticar a identificação rápida de quando concordar ou não — sem exercícios formais, só exemplos comentados.

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